Por que injetar mais dinheiro não resolve a saúde de Uberlândia?
- Mariana Marques | Jornalista e Assessora Parlamentar
- há 22 horas
- 4 min de leitura
Em entrevista ao Portal Regionalzão, Professor Conrado Augusto faz um raio-x da saúde na cidade e aponta caminhos para resolver problemas estruturais

Todo morador de Uberlândia que já precisou de atendimento médico de urgência conhece bem o roteiro: a madrugada fria na fila das UAIs, a espera que se arrasta por horas e a sensação de exaustão antes mesmo de ser atendido.
Diante desse cenário de superlotação e demora, a percepção imediata costuma ser a de que a Prefeitura precisa colocar mais dinheiro na saúde. Mas e se o problema for mais complexo do que parece?
Essa foi uma das discussões centrais levantadas pelo vereador Conrado Augusto durante o evento Mega Brasil 2026, em entrevista concedida ao Portal Regionalzão.
Como professor e parlamentar, Conrado lança o seu olhar além dos sintomas evidentes para chegar à raiz do problema. Na política, soluções simplistas para problemas complexos aliviam a dor por um instante, mas não resolvem de fato o que está em jogo. Para mudar a realidade de Uberlândia é preciso, primeiro, aprender a olhar para os bastidores da máquina pública de forma pragmática.
Para onde vai o dinheiro da Saúde?
Para começar a desatar esse nó, vale olhar para o orçamento municipal. A lei que define quanto a cidade terá em caixa e como esse dinheiro será aplicado é a Lei Orçamentária Anual (LOA). Em Uberlândia, o montante gira em torno de R$ 5,7 bilhões. Desse total, quase 39% (cerca de R$ 2 bilhões) vão direto para a pasta da saúde.
A lei federal obriga os municípios a investirem, no mínimo, 15% da arrecadação nessa área. Isso significa que Uberlândia aplica mais que o dobro do piso obrigatório. Ao compararmos com grandes capitais, o contraste chama atenção. Belo Horizonte, por exemplo, investe proporcionalmente entre 21% e 23% da receita em saúde.
Isso leva à grande questão apontada pelo vereador. Se o município está colocando uma proporção de recursos muito superior à de outras grandes metrópoles e, ainda assim, a ponta continua sofrendo com filas e demora, os trabalhadores continuam enfrentando falta de insumos básicos e até atrasos no pagamento e nas férias, a conclusão lógica é uma só. O problema principal não é a falta de dinheiro em caixa, mas a forma como o sistema é financiado e organizado.
Como funciona o financiamento do SUS
Para entender por que Uberlândia carrega um peso desproporcional, precisamos olhar para como o Sistema Único de Saúde (SUS) foi desenhado. O princípio original era que a responsabilidade e os custos fossem divididos entre três entes: o Governo Federal, os Governos Estaduais e os Municípios. Esse é o modelo de financiamento tripartite do SUS.
O que aconteceu ao longo dos anos, contudo, foi uma distorção desse acordo. Cidades-polo como Uberlândia acabaram ficando com o maior peso nas costas. O município arca sozinho com custos fixos pesadíssimos para manter portas de urgência e emergência abertas 24 horas por dia, atendendo inclusive pacientes de toda a região, sem que a ajuda financeira dos outros entes seja suficiente para a demanda.
Ou seja, a conta recai de maneira desequilibrada sobre a Prefeitura, e a cidade segue tratando o sintoma sem alcançar a causa.
Terceirização e fiscalização: o ponto mais delicado da gestão
Outra questão delicada da gestão em Uberlândia é o modelo de operação. A cidade optou historicamente por terceirizar parte significativa da administração de unidades de saúde por meio de Organizações Sociais, as chamadas OSs.
Nesse ponto, o Professor Conrado Augusto reforça um alerta importante: terceirizar a gestão não significa terceirizar a responsabilidade. Alguns pensam que, ao entregar a administração para uma entidade externa, a Prefeitura possa “lavar as mãos". É o contrário: a Prefeitura continua sendo a grande contratante.
É exatamente nesse modelo que o sistema costuma falhar. Não basta assinar contratos milionários e cruzar os braços esperando que tudo funcione sozinho. O papel do poder público deve ser o de acompanhamento dos contratos e de fiscalização rigorosa.
O dinheiro público repassado está se convertendo em atendimento humanizado de verdade? As metas de exames, consultas e escalas médicas estão sendo cumpridas à risca? Os insumos chegam onde precisam chegar, sem desperdício? Perguntas como essas não podem ficar sem resposta, nem sem ação concreta.
Fiscalizar contrato não é favor político: é obrigação básica de quem zela pelo dinheiro do contribuinte.
Soluções que nascem com a equipe da ponta
As respostas definitivas para os gargalos da saúde pública nunca vão brotar de ambientes distantes da realidade das unidades de saúde. As melhores diretrizes vêm das equipes multiprofissionais (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, maqueiros, agentes comunitários de saúde, fisioterapeutas, odontólogos, psicólogos, agentes de limpeza e administrativos, entre outros), que seguram o sistema nas costas todos os dias.
Esses profissionais, que muitas vezes enfrentam plantões exaustivos nas unidades de saúde do município, conhecem a engrenagem por dentro. Por isso, o mandato do Professor Conrado Augusto se alicerça na escuta ativa dessas equipes. Modernizar estruturas antigas e alinhar a tecnologia médica às demandas de hoje exige diálogo direto com quem faz a saúde acontecer na ponta.
Assista à entrevista completa
Durante o Mega Brasil 2026, o Professor Conrado conversou sobre esses desafios, sua trajetória e os caminhos possíveis para Uberlândia. Você pode conferir a entrevista na íntegra no vídeo abaixo.
Para ler a matéria original que repercutiu esse bate-papo, acesse a cobertura completa no Portal Regionalzão.
A sua indignação com a fila da UAI é legítima e serve de combustível para a cobrança política. Mas entender os bastidores da máquina pública é o primeiro passo para construirmos soluções reais para Uberlândia.
Quer contribuir com essa discussão? Envie seu comentário, sua sugestão ou sua opinião para os nossos contatos. Vamos juntos nessa conversa.

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